quinta-feira, 2 de julho de 2009

THOMAS BAYRLE, ANN LISLEGAARD E ULTRA-RED

A Raven Row é uma galeria sem fins comerciais criada pelo colecionador – e um dos herdeiros da cadeia de supermercados britânica de mesmo nome – Alex Sainsbury. O espaço foi inaugurado no começo deste ano e, de acordo com Sainsbury, o objetivo é mostrar as possibilidades da arte contemporânea para além do contexto comercial, incluindo o trabalho de artistas menos conhecidos.

Sediada em um edifício de estilo georgiano cuidadosamente reformado localizado na região de Spitalfields, a galeria é arejada e iluminada, apesar de não ser nada como o - supostamente neutro - cubo branco tradicional. Muitas das características originais do prédio foram mantidas, incluindo alguns detalhes decorativos Rococó que parecem ter sido incorporados no contexto contemporâneo da galeria sem muito esforço.

Durante esta exposição, a maior parte do espaço térreo foi ocupada pelos trabalhos de Thomas Bayrle, figura seminal do Pop alemão dos anos 60, e que apenas nos últimos anos vem ganhando mais reconhecimento. Bayrle utiliza a rodovia em todas as peças desta exposição como metáfora para “um estado de modernidade em que estamos apostando uma corrida para ficar parados”.

Em SARS Formation (Modified), 2008, uma peça grande que ocupa uma sala inteira, Bayrle utiliza uma lógica que caracteriza a maioria de seus trabalhos anteriores: a repetição de unidades singulares para criar um padrão. Este método, quando utilizado em seus trabalhos bidimensionais, geralmente produz um efeito mais alucinatório. Aqui, ele entrelaça rodovias feitas de papel cartão para reproduzir a estrutura molecular do vírus da SARS, criando uma escultura impositiva, cujo forte caráter formal parece obscurecer sua qualidade vibrátil.





“Nervosismo e vibração”, noções examinadas por Lars Bang Larsen no interessante ensaio que acompanha a mostra, tornam-se proeminentes na filme-instalação Autobahn-Kopf (“Rodovia-Cabeça”, 1988-89). Produzida de maneira low-tech, utilizando fotocópias em preto e branco, esta curta animação em loop mostra uma cabeça humana formada por faixas de rodovias que são continuamente atravessadas por um tráfico incessante e acompanhadas do ruído dos projetores de 16mm.





No andar superior, o tema da modernidade também permeia a animação em 3D de Ann Lislegaard, Crystal World (After JG Ballard), 2006, comissionado pela 27a. Bienal de São Paulo. O título foi emprestado do livro de 1996 que conta a história de um cristal viral descoberto em uma selva tropical que petrifica tudo aquilo que toca. Nesta instalação em dois canais, Lislegaard utiliza algumas frases do livro em uma das telas para pontuar as imagens em preto e branco ultra lavadas que se movem vagarosamente e que incorporam a abundante natureza tropical e elementos arquitetônicos da famosa Casa de Vidro de Lina Bo Bardi. A extrema precisão e frieza das imagens, combinadas com a constante mudança dos movimentos de câmera e ângulos, contrasta drasticamente com as imagens de uma arquitetura modernista tropical pós-utópica.





Na instalação sonora Science Fiction_3114 (2008), Lislegaard manipula a trilha sonora do clássico de Stanley Kubrick, 2001: Uma Odisséia no Espaço. mais uma vez utiliza referências culturais estabelecidas e uma visão datada do futuro como matéria prima; desta vez comprimindo todo o material em meros oito minutos e 41 segundos.
O som é também o meio escolhido pelo coletivo de artistas Ultra-red. Durante o período da exposição, o grupo organizou oficinas com grupos comunitários e adicionou gravações de som e diagramas a uma das salas da galeria. Mas o trabalho, além de não possuir uma coesão conceitual em relação aos dos outros artistas participantes, parece funcionar muito mais efetivamente na forma de eventos presenciais.






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